Na intimidade de Vladimir Nabokov

Tradutor apaixonado, Jório Dauster faz novos passeios pela mente do criador de Lolita.

Se ninguém conhece melhor a alma de Lolita do que Vladimir Vladimirovitch Nabokov, criador da célebre personagem-título da obra lançada na França em 1955, pode-se dizer que poucos brasileiros têm mais intimidade com a mente do autor russo do que o ex-embaixador, ex-executivo e consultor Jorio Dauster de Magalhães e Silva. E é assim que ele próprio vê o ofício de tradutor. Como mero “artesão”, Dauster dedica-se à tradução por já quase 40 dos seus 66 anos de idade, quase sempre movido pela paixão inspirada pelo texto de Nabokov, de quem já traduziu oito títulos do inglês para o português. “Ao traduzir, você atinge a intimidade mental do escritor”, define ele, co-responsável, em 1965, pela aparição no Brasil do incomparável bestseller do norte-americano Jerome David Salinger, “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Um dos produtos dessa intimidade com Nabokov chegou, em junho último, a até no mínimo 900 mil leitores potenciais, com o lançamento da Biblioteca Folha/Globo acoplando Lolita gratuitamente às edições dominicais dos diários “O Globo” e “Folha de São Paulo”.

A ousadia editorial de despejar uma tiragem milionária no mercado, em apenas duas semanas, multiplicou exponencialmente a divulgação da obra no Brasil: até então, o texto traduzido pelo consultor somava tiragem de 6 mil exemplares, pela Companhia das Letras.

Está ainda por ser apurada a reação de uma platéia tão ampla, sobretudo para os padrões brasileiros, diante de um texto que foi tão polêmico, como esse. Escrito originalmente em inglês, o livro de Nabokov surgiu timidamente em Paris, pela Olympia Presse. Alvoroçou a parcela moralista da sociedade da época, célere ao reduzir a densa psicologia das personagens multifacetadas de Lolita a mero encontro entre um “velho tarado” e “uma menina ingênua”. Foi proibido na França e levou três anos para aparecer na Inglaterra e nos EUA, em 1958.

De todo modo, quem quer que tenha se deliciado com o produto da ousadia editorial do brinde de lançamento da Biblioteca Folha/Globo pode se preparar em 2004 para uma nova chance de chegar mais perto da mente de Nabokov em português, por intermédio de Dauster: sai em agosto, pela Companhia das Letras uma reedição de “Fogo Pálido”.

A obra, como resume seu tradutor, consiste de “comentários feitos por um rei louco a um poema biográfico de 999 versos, divididos em quatro cantos absolutamente simétricos, cujo autor fora recentemente morto a tiros (por um engano do assassino)”. Residiu aí o feitiço maior que atraiu Dauster a empreender sua primeira tradução de Nabokov, dedicada a um livro por muitos críticos considerado a melhor produção do autor russo. Ela saiu no Brasil em 1985, pela Editora Guanabara, e depois foi reeditada pelo Círculo do Livro.

Homem dado a enfrentar desafios como lazer, o ex-embaixador, então representante do Brasil na Organização Internacional do Café, em Londres, usava o horário do almoço para jogar sinuca nos dias chuvosos e, naqueles mais raros, quando o sol brilhava, ia ao tênis. Invencível na prática mais freqüente, Dauster teve, porém, que recorrer ao poeta e também diplomata Sérgio Duarte, ex-embaixador brasileiro na Nicarágua, quando se deparou com a métrica do poema de Nabokov. Composto em decassílabos rimados dois a dois, o tradutor julgou imprescindível manter a estrutura rítmica.

“Seria um crime não fazê-lo”, diz o exigente e disciplinado Dauster, ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro. A tradução do poema logrou “o beneplácito” dos tradutores Paulo Rónai e seu colega “imortal” Antônio Houaiss. Só então, ele e Duarte terminaram o texto.

Filho de médico e professora em uma família da classe média carioca, Dauster desde jovem gosta de desafios. Traiu o teste vocacional, desviando-se da publicidade, que o fascinava, e fez-se diligente servidor público. Saiu do Instituto Rio Branco em 1964, como primeiro da classe. Já vice-cônsul do Brasil em Montreal, dono de bom conhecimento de inglês, espanhol e francês, fez, no ano seguinte, sua primeira incursão no “hobby” preferido. Até então leitor voraz de literatura russa e francesa em português, foi irresistivelmente atraído pela “forma ágil, muitas vezes cheia de humor, com que, sem perda de um forte componente emocional, J.D Salinger soube retratar as angústias do adolescente diante das falsidades do mundo adulto em ‘O Apanhador no Campo de Centeio”. E decidiu, como diz, “trazer o livro para mais perto de si”. Dauster traduziu em parceria com os colegas diplomatas Antônio Rocha e Álvaro Alencar. Por essa época, já havia se deparado com a Lolita de Nabokov em português. Só a leria no original, “com muito maior cuidado e prazer”, bem mais tarde.

No primeiro contato, deixou-se “levar pela curiosidade quanto ao destino dos personagens e o encaminhamento da trama, sacrificando os pormenores do relato e as artimanhas da forma”. E que pormenores! “É como ir de uma cidade a outra pela via expressa, quando as estradinhas vicinais poderiam esconder belas paisagens, lugarejos cheios de charme. Em Nabokov, isso é particularmente empobrecedor, pois ele é um mestre da linguagem, um escultor de imagens.” Dauster diz que, para se ler bem Nabokov, é preciso relê-lo várias vezes. “A cada nova visita”, diz, “se descobrirá mais um coelhinho que estava, até então, escondido na cartola”.

Entre autor e tradutor há várias coincidências. Nabokov teve o tênis entre os esportes que praticou, foi tradutor (mas para ganhar a vida) quando se exilou da Rússia bolchevique em Berlim, e era exímio enxadrista, qualidade perseguida com afinco pelo ex-embaixador brasileiro. Dauster também tem uma queda e tanto por metáforas.

Em artigo intitulado “A Lolita de Nabokov ou o desejo como obsessão”, Dauster dispende um parágrafo para resumir o enredo do livro. No trecho seguinte, sai-se com esta: “É óbvio que este resumo faz tanta justiça ao livro quanto a visão de um bloco de mármore pode sugerir a forma que lhe será dada pelo cinzel do escultor.” Como diplomata, metáforas também lhe seriam úteis.

Por duas vezes, Jorio foi relegado ao ostracismo no Ministério das Relações Exteriores. Irmão de Bruno Dauster, integrante de organização clandestina durante o regime militar, foi tido da esquerda do Itamaraty. Só logrou promoção na diplomacia durante o governo Geisel. A tradução, como se viu, floresceu no período da geladeira.

Mais tarde, já coroado profissional competente por sua gestão à frente da representação da OIC em Londres, desmontou, na presidência do Instituto Brasileiro do Café, um sistema de quotas para exportação de caráter quase hereditário. E criou o Fundo de Assistência à Cafeicultura, que destinava recursos aos exportadores para equilibrar o mercado. Santo remédio para quem já tivera o gosto amargo de enfrentar, em 1986, a gerência de um mega-escândalo – a “Operação Patrícia”. Nele, o ônus de malograda ação especulativa na Bolsa de Londres caiu no colo do Tesouro Nacional.

Dauster ganhou fama de “saber ouvir, saber até onde transigir, ser duro sem antipatia e avançar na hora certa”, nas palavras do falecido ex-ministro das Relações Exteriores, Roberto de Abreu Sodré. Mais tarde, seu estilo estratégico aplastaria até mesmo o efeito SNI, cujo nariz torcido levou o ex-presidente José Sarney a preteri-lo, de início, para presidir o IBC.

Até gente pouco afeita ao diálogo notou a habilidade do embaixador: ele foi negociador da dívida externa brasileira na gestão de Zélia Cardoso de Mello no então Ministério da Economia. Mas, nos anos 90, o tradutor já enveredava por outros escaninhos da mente de Nabokov. Traduziu, por exemplo, “O Mago e Machenka”, um dos 65 contos que o autor escreveu em russo e verteu para o inglês.

Singular entre seus pares, por escrever em dois idiomas – russo, até os 50 anos, e inglês, já nos EUA – Nabokov primou pelo ecletismo: foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e ensaísta, especialista em insetos como a borboleta e bom goleiro de futebol. Escreveu até em francês – o conto “Mademoiselle O” . “Espero chegar à senhorita em algum momento”, diz o igualmente eclético Dauster, que verteu 26 dos contos do escritor.

Foi por sugestão da editora que, em 1993, o tradutor, fã do americano Thomas Pynchon, recluso como Salinger, traduziu “Leilão do Lote 49″, trama californiana dos anos 60, na qual o bom-humor do autor faz par ao jeito de ser carioca de Dauster.

Dauster despediu-se do serviço público como embaixador do Brasil na Comunidade Européia. Presidiu, então, a já privatizada Vale do Rio Doce, de Benjamin Steinbruch. Moveu-se ali com a discrição requerida pelas circunstâncias. Hoje é consultor independente. Preside o Instituto de Estudos Políticos e Sociais.

Sobra-lhe pouco tempo para a tarefa que a Companhia das Letras planeja levar às livrarias em 2005 – o nono Nabokov por Dauster. É “Ada”, que ele vê como um dos títulos-pico na cordilheira composta pela obra do escritor russo, rival de “Lolita”, “Fogo Pálido” e “The Gift”. O enredo é a relação incestuosa de um casal de irmãos.

Repleto de maneirismos dos arrogantes protagonistas, o livro tem sido a mais trabalhosa das traduções, atividade que demanda muita atenção, tempo e pesquisa. “No Brasil, é mal remunerada e quase totalmente desprezada. São raros os comentários nas resenhas dos livros e quase só aparecem quando se trata de apontar erros”, diz Dauster. “Tende a se confundir com simples diletantismo, quando devia ser sinônimo de profissionalismo apaixonado”, critica.

O fruto do profissionalismo apaixonado de Dauster nunca brilhou tanto. A Companhia das Letras animou-se a programar lançamentos do autor russo. Sylvian Mifano, sócio da espanhola Mediasat, que responde pela coleção “Biblioteca” na Europa e no Brasil, atestou o efeito entre os livreiros. “Eles dizem que a injeção de Lolitas pelas bancas de jornais deflagrou, nas semanas seguintes, demanda inusitada por obras de Nabokov.”