Verbete Dicionário de Tradutores

Jorio Dauster - Verbete Dicionário de Tradutores

 

Jorio Dauster Magalhães e Silva nasceu em 19 de novembro de 1937 na cidade do Rio de Janeiro, onde ainda reside. Obteve sua formação universitária no Instituto Rio Branco, onde completou o curso de preparação à carreira diplomática. Entrou em contato com as línguas inglesa e francesa quando estudava para passar no exame de admissão ao Instituto Rio Branco, aprimorando-as mais tarde ao longo de uma vida de viagens e leituras e também incorporando o espanhol como instrumento de trabalho. Apesar do domínio de várias línguas, Jorio até hoje traduziu apenas do inglês para o português.

Exerce a profissão de consultor independente desde 2002; tendo antes se dedicado à profissão de Diplomata durante o período de 1963 a 1999 e executivo como Presidente da Cia. Vale do Rio Doce, de 1999 a 2002.

Enquanto trabalhava como diplomata, Jorio Dauster viveu em diferentes metrópoles estrangeiras, como Montreal de 1965 a 1968; Praga de 1968 a 1972; Londres de 1979 a 1987 e Bruxelas de 1991 até 1999. No Brasil, morou nas cidades de Rio de Janeiro e Brasília durante períodos intercalados entre uma viagem e outra.

Começou a traduzir O Apanhador no Campo de Centeio de J.D. Salinger em 1963 com outros dois colegas diplomatas. Além de traduções de obras literárias, nos tempos de terceiro secretário Jorio realizou traduções ocasionais para o inglês de textos de divulgação de órgãos públicos. Dedicou-se à tradução de O governo invisível, primeiro relato sobre as manobras do CIA durante a Guerra Fria, inclusive a fracassada invasão da Baía dos Porcos para a Editora Civilização Brasileira.

Ao todo, Jorio já traduziu dezesseis obras, quatro delas em co-tradução, e um conto incluído em coletânea. As mais famosas são O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, e Lolita, de Vladimir Nabokov.

 

 

Excerto de Tradução

 

Trecho de Lolita, de Nabokov.

Tradução de Jorio Dauster.

 

One day, soon after her disappearance, an attack of abominable nausea forced
me to pull up on the ghost of an old mountain road that now accompanied, now
traversed a brand new highway, with its population of asters bathing in the
detached warmth of a pale-blue afternoon in late summer. After coughing
myself inside out, I rested a while on a boulder, and then, thinking the
sweet air might do me good, walked a little way toward a low stone parapet
on the precipice side of the highway. Small grasshoppers spurted out of the
withered roadside weeds. A very light cloud was opening its arms and moving
toward a slightly more substantial one belonging to another, more sluggish,
heavenlogged system. As I approached the friendly abyss, I grew aware of a
melodious unity of sounds rising like vapour from a small mining town that
lay at my feet, in a fold in the valley. One could make out the geometry of
the streets between blocks of red and grey roofs, and green puffs of trees,
and a serpentine stream, and the rich, ore-like glitter of the city dump,
and beyond the town, roads criss-crossing the crazy quilt of dark and pale
fields, and behind it all, great timbered mountains. But even brighter that
those quietly rejoicing colours — for there are colours and shades that
seem to enjoy themselves in good company — both brighter and dreamier to
the ear than they were to the eye, was that vapoury vibration of accumulated
sounds that never ceased for a moment, as it rose to the lip of granite
where I stood wiping my foul mouth. And soon I realized that all these
sounds were of one nature, that no other sounds but these came from the
streets of the transparent town, with the women at home and the men away.
Reader! What I heard was but the melody of children at play, nothing but
that, and so limpid was the air that within this vapour of blended voices,
majestic and minute, remote and magically near, frank and divinely
enigmatic — one could hear now and then, as if released, an almost
articulate spurt of vivid laughter, or the crack of a bat or the clatter of
a toy wagon, but it was all really too far for the eye to distinguish any
movement in the lightly etched streets. I stood listening to that musical
vibration from my lofty slope, to those flashes of separate cries with a
kind of demure murmur for background, and then I knew that the hopelessly
poignant thing was not Lolita’s absence from my side, but the absence of her
voice from that concord.

 

Certo dia, pouco após o desaparecimento de Lolita, um acesso de abominável
náusea forçou-me a parar à beira de uma velha estrada de montanha, um
fantasma de estrada que ora margeava ora cruzava uma rodovia nova em folha,
seguida por uma multidão de florezinhas silvestres banhadas no calor
desatento de uma tarde azulada de fim de verão. Depois de quase virar-me
pelo avesso, sentei numa pedra para descansar por uns minutos e, imaginando
que o ar ameno pudesse me fazer bem, dei alguns passos na direção de um
parapeito de pedra que se erguia entre a estrada e o precipício. Pequenos
gafanhotos saltitavam em meio às ervas murchas que ladeavam o caminho. Uma
tênue nuvenzinha abria os braços e se movia ao encontro de outra algo mais
substancial, pertencente a um sistema mais lento, mais encharcado de céu. Ao
aproximar-me do acolhedor abismo, percebi um melodioso conjunto de sons que
subia como vapor de uma cidadezinha estendida a meus pés numa dobra do vale.
Dava para se ver a geometria das ruas entre os quarteirões de telhados
vermelhos e cinzentos, os verdes pompons das árvores, um riacho serpentino,
o rico brilho mineral do depósito de lixo e, para além do casario, o
entrecruzar de estradas na colcha de retalhos dos campos claros e escuros,
até que a vista esbarrava, ao longe, em altas montanhas cobertas de
florestas. Enretanto, ainda mais viva do que aquelas cores que se
regozijavam tranqüilamente (pois há cores e sombras que parecem divertir-se
em boa companhia), mais viva e mais doce para os ouvidos do que para os
olhos, era aquela vibração vaporosa de sons acumulados, que não cessava por
um segundo e ascendia até a borda de granito onde eu me encontrava,
enxugando a boca imunda. E logo percebi que todos aqueles sons tinham a
mesma natureza, que nenhum outro ruído emergia da cidade transparente, com
as mulheres dentro de casa e os homens no trabalho. Leitor! O que eu ouvia
era simplesmente a melodia de crianças brincando, nada senão isso, o ar era
tão límpido que, em meio àquele eflúvio de vozes entrelaçadas — majestosas
e diminutas, remotas e magicamente próximas, inocentes e divinamente
enigmáticas –, podia discernir-se vez por outra, como se enfim liberados, o
vívido cascatear de um riso borbulhante, o estalido de uma bola contra o
bastão de beisebol, o chocalhar de um caminhão de brinquedo, mas tudo isso
longe demais para que os olhos distinguissem qualquer movimento nas ruas
finamente tracejadas. Ali fiquei, no meu sublime mirante, ouvindo aquela
vibração musical, o espocar de gritos isolados contra o tímido murmúrio do
fundo sonoro — e compreendi, então, que o que havia de desesperadoramente
terrível não era a ausência de Lolita a meu lado, mas a ausência de sua voz
naquele coral.

 

 

 

 

Obras Publicadas:

 

Salinger, J.D.. O apanhador no campo de centeio. [Por:Jorio Dauster; Álvaro Alencar & Antônio Rocha].Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1965. (The Catcher in the Rye). Ficção.

Salinger, J.D.. Nove estórias. [Por:Jorio Dauster &  Álvaro Alencar].Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1969. (Nine Stories). Ficção.

Salinger, J.D.. Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira / Seymour, uma apresentação. [Por:Jorio Dauster].São Paulo: Companhia das Letras, 2001. (Raise high the roof beam, carpenters). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Fogo pálido. [Por:Jorio Dauster & Sérgio Duarte].Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1985. (Pale fire). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Fogo pálido. [Por:Jorio Dauster & Sérgio Duarte].São Paulo: Círculo do Livro, 2004. (Pale fire). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Fogo pálido. [Por:Jorio Dauster & Sérgio Duarte].São Paulo: Companhia das Letras, 2004. (Pale fire). Ficção.

Nabokov, Vladimir. O mago. [Por:Jorio Dauster].Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987. (The Enchanter). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Lolita. [Por:Jorio Dauster].São Paulo: Companhia das Letras, 1994. (Lolita). Ficção. Reimpressão: São Paulo: Biblioteca Folha, 2003.

Nabokov, Vladimir. Machenka. [Por:Jorio Dauster].São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (Mary). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Perfeição e outros contos. [Por:Jorio Dauster].São Paulo: Companhia das Letras, 1996. (Tyrants destroyed and other stories). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Pnin. [Por:Jorio Dauster].São Paulo: Companhia das Letras, 1997. (Pnin). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Riso no escuro. [Por:Jorio Dauster].São Paulo: Companhia das Letras, 1998. (Laughter in the Dark). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Detalhes de um pôr-do-sol e outros contos. [Por:Jorio Dauster].São Paulo: Companhia das Letras, 2002. (Details of a sunset and other stories). Ficção.

Nabokov, Vladimir. Ada ou ardor, crônica de uma família. [Por:Jorio Dauster].São Paulo: Companhia das Letras, 2005. ( Ada or Ardor: A Family Chronicle ). Ficção.

Wise, David & Ross, Thomas . O governo invisível. [Por:Jorio Dauster].Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965. (The Invisible Government). Política.

Poe, E. A.. “Os fatos no caso do sr. Valdemar”. [Por: Jorio Dauster].Alberto Manguel (Org.). Contos de horror do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. Ficção. Introdução de Alberto Manguel.