Quo Vadis

Há mais de meio século, num famoso filme cujo título tomo emprestado para abrir este artigo, Nero, representado por Peter Ustinov, cantava e tocava lira enquanto Roma ardia num incêndio que ele próprio mandara atear. Embora a cena não tenha fidedignidade histórica, é difícil apagá-la da memória no momento em que toda a Europa ameaça pegar fogo sem que suas elites dirigentes pareçam capazes de impedir a catástrofe que se aproxima.

Dois anos atrás, fagulhas da crise financeira nascida nos Estados Unidos atravessaram o Atlântico e atearam fogo no palheiro formado nas margens do Mediterrâneo e na Irlanda graças aos desequilíbrios fiscais acumulados ao longo dos tempos de euforia. De lá para cá, enquanto as pesadas engrenagens políticas da União Europeia se moviam com uma lentidão exasperante, as chamas engolfaram Atenas, Dublin e Lisboa para chegar agora às portas de Madri, Roma e até mesmo Paris. Como explicar tamanha apatia diante de risco tão palpável e gigantesco?

O pecado original consistiu em criar uma zona monetária sem o necessário complemento da estrutura fiscal e minimizar o efeito das diferenças de produtividade entre as economias nacionais envolvidas no sistema. Com o tempo, a Alemanha (cujos sindicatos trocaram a estabilidade no emprego pelo aumento de salários) alargou sua vantagem relativa em relação aos parceiros comunitários, acumulando grandes superávits em conta corrente. Enquanto isso, a maioria dos seus primos pobres recorreu ao financiamento externo para sustentar uma prosperidade menos sólida, gerando a atual crise de divida soberana ou, como no caso da Espanha, a insolvência privada decorrente de uma imensa bolha imobiliária. Como resultado, todo o sistema financeiro europeu está agora soterrado sob uma montanha de papeis combustíveis com perspectiva cada vez menor de serem honrados.

Tudo que foi feito até o momento – do “corte de cabelo” na dívida grega à criação do Fundo Europeu de Estabilização Financeira – merece receber o carimbo de too little, too late – e nada indica que os bombeiros estejam prontos a apagar a conflagração enquanto perdurar a negativa alemã de que o Banco Central Europeu sirva como emprestador de última instância. A rigor, essa opção foi negada quando da criação do Banco justamente para impedir que os integrantes da zona do euro se sentissem tentados a adotar políticas fiscais irresponsáveis. Mas agora não parece restar outra saída uma vez que o Fundo de Estabilização se mostra incapaz de amealhar os pelos menos dois trilhões de Euros que lhe dariam credibilidade perante os mercados.

As pretensas soluções via saída da zona do Euro – seja dos mais fracos, como Grécia e Portugal, seja dos mais fortes, como Alemanha e França – ignoram as inimagináveis dificuldades técnicas que elas representariam, mas sobretudo a corrida bancária que resultaria de qualquer anúncio prévio desse tipo e o tempo que tomaria para efetivar as mudanças necessárias. Na verdade, o que está ameaçado pelas chamas é todo o edifício da integração europeia erigido ao longo de sessenta anos, e não apenas uma ou outra parte da magnífica estrutura.

As cifras são aterradoras: a dívida pública dos PIIGS (Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália) é de 3,4 trilhões de Euros, dos quais 600 bilhões terão de ser refinanciados no ano que vem. A maior parte dos papeis podres ou em vias de apodrecer está nos cofres dos bancos europeus, porém, segundo o Instituto Internacional de Finanças, a exposição total das instituições norte-americanas às turbulências da zona do Euro soma 770 bilhões de dólares, dos quais 181 bilhões de crédito junto aos setores público e privado dos PIIGS e 587 bilhões em garantias de derivativos. Assim, caso venha a fracassar o experimento da moeda única, o clima recessivo que hoje paira sobre os Estados Unidos e o Japão pode se transmudar numa depressão de alcance mundial com consequências só vistas na década de 30 do século passado. No filme de 1951, a turba se rebela e invade o palácio de Nero para matá-lo.  Será que o filme de hoje terá um final menos trágico?